Resíduos & Economia Circular

Os resíduos constituem umas das 5 maiores fontes de emissões de gases de efeito estufa, causados durante a produção dos materiais, o transporte dos mesmos uma vez despejados para o lixo, e todas as operações de tratamento (triagem, reciclagem e deposição em aterro ou incineração).  

A economia circular é uma nova abordagem à forma como produzimos e consumimos no nosso dia-a-dia, assente na ideia que tudo o que é produzido deve ser pensado para ter o menor impacto possível (usar poucos recursos naturais, integrar materiais reciclados e evitar substâncias tóxicas), nunca se tornar resíduo (por exemplo ser durável, reparável, atualizável, reutilizável) ou, se e quando tal acontecer, poder ser facilmente reciclado e reintegrado na economia sob a forma de produtos de elevado valor. É uma economia que procura trabalhar em ciclo fechado, onde os recursos que entram acabam por nunca sair do sistema, evitando desta forma o desperdício de recursos/resíduos através da sua queima e deposição em aterro.

Factos-chaves

A pegada ecológica é uma medida internacional que traduz quantos hectares é que são necessários para suportar as atividades humanas (incluindo todos os recursos que são precisos como alimentação, energia, etc.) sendo que em 2023, a pegada ecológica da Humanidade foi de quase 1,8 planetas
A pegada ecológica portuguesa em 2023 foi de 2,9 planetas, enquanto que a média da União Europeia (UE) foi de 3, ou seja, se toda a Humanidade vivesse como nós, seriam necessários quase 3 planetas para satisfazer o nosso consumo e estilo de vida, o que não só é insustentável e irresponsável, como também põe em risco a prosperidade da UE a longo prazo
A produtividade dos materiais, ou seja, o valor económico gerado por unidade de material consumido (dólares/Kg) é mais baixo em Portugal do que na média da UE – 1,9 vs. 2,9 (2020)
A quantidade de resíduos urbanos produzida anualmente em Portugal não pára de aumentar: cada português em 2021 produziu em média 513 kg, quando em 2006 produzia 465 kg, enquanto a média da UE em 2021 era de 530 kg (em 2006 era de 513 kg/habitante)
Portugal tem uma taxa de circularidade dos materiais (percentagem de recursos materiais provenientes de resíduos reciclados) muito baixa que em 2020 era de 2%, sendo que a média da UE, ainda que também ela baixa, era de 13%
Em 2024 passa a ser obrigatória a recolha de biorresíduos em Portugal, medida que é decisiva para que em 2030 se cumpra a meta de 60% de preparação para a reutilização e reciclagem de resíduos urbanos
A partir de 2025 vai ser obrigatória a recolha seletiva de resíduos têxteis e de volumosos (monos)
Devemos cumprir a hierarquia dos resíduos: reduzir toda a produção de resíduos possível, sendo a solução preferencial a reutilização para evitar o dispêndio energético na transformação e transporte; não sendo possível a reutilização, a segunda opção será a reciclagem; mas é preciso ter em atenção que os materiais compósitos por mais do que um material tornam-se quase impossíveis de reciclar, devendo ser dada preferência a materiais simples (compostos por apenas um material)
Optar por comprar um telemóvel recondicionado pode evitar a emissão de 25 kg de Gases com Efeito de Estufa (GEE) e a extração de 82 kg de matérias-primas por cada ano de utilização dos equipamentos enquanto no caso dos computadores e dos tablets esta também é a melhor opção, com estas escolhas a representarem uma redução do impacto ambiental que pode chegar até aos 91%
Upcycling é a recuperação de objetos através da criatividade, termo que se opõe ao Downcycling, ou seja, a reciclagem dos materiais com perda de qualidade e gastos elevados de energia no processo

por:
Susana Fonseca

ZERO

Pontos positivos

  • Na área dos óleos minerais (por exemplo, os óleos lubrificantes), Portugal tem uma elevada taxa (82 %) de recolha e regeneração para reutilização dos óleos recolhidos (processo industrial que permite a remoção de contaminantes, produtos de degradação e aditivos, transformando o óleo usado em óleo base regenerado). 
  • A partir de 28 de dezembro de 2024, o carregador universal, com entrada USB-C, vai ser uma realidade na União Europeia (UE) permitindo o recarregamento de diferentes dispositivos tecnológicos, reduzindo o seu impacto ambiental e os custos para os consumidores.
  • A partir de janeiro de 2025 as empresas terão de separar as 5 frações de resíduos (3 embalagens recicláveis, biorresíduos e indiferenciado), aplicando-se ainda um tarifário justo (pay-as-you-throw) a implementar pelas autarquias a partir da mesma data.
  • Desde 2021, os consumidores podem levar os seus sacos e embalagens reutilizáveis às compras e aos estabelecimentos da restauração, não estando obrigados a usarem os oferecidos pelo comércio.
  • A partir de 1 de janeiro de 2022 entrou em vigor um Decreto-Lei que alargou o período de garantia de produtos móveis (aparelhos elétricos, eletrodomésticos, carros, etc.) de 2 para 3 anos e os consumidores passaram ainda a ter direito a pedir peças e a reparação de produtos depois do fim da garantia durante 10 anos tendo as empresas de responder a este novo mercado.

Pontos negativos

  • Há uma falta de estratégia por parte dos municípios para os biorresíduos, uma vez que a aposta na sua recolha e na compostagem doméstica e/ou comunitária é ainda insuficiente.  Uma grande parte dos biorresíduos continuam a ser misturados nos resíduos indiferenciados.
  • Dificuldades em cumprir as metas de reciclagem na área dos resíduos urbanos e dos resíduos de equipamentos elétricos e eletrónicos, com a taxa de reciclagem de resíduos urbanos em 2022 a ser de 24%, e a de equipamentos elétricos em 2021 de 27%, quando a meta para 2025 é de 55% e 65%, respetivamente.  A maioria dos materiais que entram na economia, quando chegam ao fim da sua vida útil, são incinerados ou depositados em aterro, ou seja, há uma baixa taxa de circularidade dos materiais.
  • Baixa percentagem de reutilização de embalagens de bebidas: a maioria das bebidas ainda se comercializam e servem em embalagens de um só uso, havendo pouca vontade política para as proibir em eventos e pouca consciência, quer do lado do setor da restauração quer do lado dos consumidores. 
  • Má qualidade dos dados e atrasos na sua disponibilização na área dos resíduos por parte da Agência Portuguesa do Ambiente, das entidades gestoras e das autarquias, prejudicando a qualidade de informação que é fornecida aos cidadãos em matéria de cumprimento de gestão de resíduos, sendo poucos os municípios que publicam online os seus dados atualizados, de forma transparente.
  • O Sistema de Depósito com Retorno (SDR) para embalagens descartáveis de bebidas em plástico, vidro e metal, aprovado há 4 anos pela Assembleia da República, cuja implementação estava prevista para 1 de janeiro de 2022, ainda não aconteceu. 

O que podes fazer?

Ações Individuais

Respeitar a hierarquia do consumo: 1) tentar sempre reparar e reutilizar o que já existe; 2) se for necessário comprar, tentar comprar em 2ª mão, tentando evitar a compra de objetos novos quando existem tantos em desuso – o mesmo se aplica também à tecnologia já que comprar computadores e telemóveis recondicionados é uma excelente opção.

Utilizar sacos e embalagens reutilizáveis sempre que fores às compras, comprando a granel sempre que possível incluindo na charcutaria, talho e peixaria. 

Levar as próprias embalagens para take away ou quando fores a um restaurante – além da redução de resíduos, contribui-se ainda para a redução do desperdício alimentar, que é dos maiores contribuidores para as emissões de GEE.

Recusar o que for desnecessário (brindes e ofertas que não são úteis) e o que for descartável, assim como pedir e insistir por loiça reutilizável (talheres, copos, pratos, etc.) quando fores a estabelecimentos de restauração, explicando ao pessoal o pretendido – desta forma, além do consumidor poder influenciar o mercado, contribui ainda para a educação de funcionários desinformados.

Respeitar a seguinte hierarquia na escolha de um produto e/ou embalagem: 1) privilegiar embalagens reutilizáveis (louça, vidro ou aço); 2) embalagens de plástico resistente e reutilizável; 3) embalagens de um só material (só papel ou só plástico) que podem ser colocadas nos devidos ecopontos, tentando evitar embalagens compósitas (compostas por mais do que um material, como as embalagens de papel com película de plástico), pois os materiais acabam por não ser separados ao longo do processo de tratamento, tornando-se quase impossíveis de reciclar.

Ações Coletivas

Exigir ao município a entrega de compostores domésticos, estilha e participar em ações formativas. Se não houver nenhum programa em vigor, organizar projetos de compostagem doméstica e/ou comunitária.

Organizar ações de limpeza de áreas degradadas pela deposição de resíduos.

Recolher e promover informação sobre diferentes pontos de recolha para produtos e objetos específicos, verificando a existência de ecocentros e centros de reutilização na região.

Procurar e divulgar que projetos de upcycling existem na região e promover a entrega de objetos sem destino alternativo aos resíduos indiferenciados junto de artistas, associações e coletivos do setor social a nível local. 

Organizar repair-cafés, eventos com estações de reparação de vários tipos de objetos (sofás, móveis) e equipamentos (computadores, eletrodomésticos) que as pessoas podem levar de casa, e com ajuda de especialistas, repará-las e prolongar o seu tempo de vida.

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