Alimentação & Saúde

Garantir que todos tenham acesso a uma dieta nutritiva de forma sustentável é um dos desafios mais significativos que enfrentamos. E a transformação dos sistemas alimentares é crucial para garantir alimentos saudáveis, seguros e equitativos de forma sustentável. No entanto, a pressão da agricultura sobre a biodiversidade e os ecossistemas, bem como o seu contributo para as alterações climáticas, ameaçam a segurança alimentar global. 

Por outro lado, hábitos alimentares associados ao excesso de consumo de alimentos pouco nutritivos, em países “mais desenvolvidos”, contribuem para deficiências nutricionais e superam a desnutrição calórica que se verifica em países “menos desenvolvidos”. 

Para solucionar ambas as problemáticas, ambientais e de saúde, especialistas defendem que uma transição para dietas saudáveis de base vegetal, que incluem cereais integrais, gorduras saudáveis insaturadas, frutas e hortícolas, poderá ser eficaz na prevenção de doenças cardiovasculares e outras doenças crónicas, evidenciando também uma associação protetora relativamente às doenças coronárias e diabetes.

Factos-chaves

Em Portugal, o sistema alimentar contribui com 31 % para o total de emissões nacionais de gases de efeito de estufa (GEE).
O consumo alimentar representa cerca de 29 % da pegada ecológica nacional, mais do que os transportes ou o consumo energético
A indústria pecuária desempenha um papel substancial nas mudanças climáticas, sendo responsável por aproximadamente 60 % das emissões globais associadas ao sistema alimentar e representa entre 15 % e 20 % das emissões totais de GEE.
As leguminosas, como favas, feijões, grão-de-bico, lentilhas, tremoços e ervilhas, são extremamente versáteis na culinária e não só são ricas em proteínas, hidratos de carbono, em fibras e vitaminas do complexo B, C, K, ácido fólico e minerais, como ferro e magnésio, como promovem também a saciedade e o controlo glicémico.
Em Portugal, produz-se apenas 14% das leguminosas que os cidadãos do país consomem, ainda assim, um maior consumo de leguminosas produzidas localmente é uma oportunidade para fomentar a economia nacional, ao mesmo tempo que se beneficiam os ecossistemas mais próximos, já que as leguminosas têm a capacidade para fixar azoto atmosférico nos solos.
Quase 80% da soja cultivada no mundo é utilizada na alimentação de animais para a produção de carne e laticínios, sendo que a expansão das pastagens para a criação de bovinos para consumo humano é responsável por 41% da desflorestação tropical.
Ainda que haja um aumento do consumo mundial de alimentos ultraprocessados e estes estejam associados à agricultura e pecuária intensivas ameaçando todas as dimensões da sustentabilidade do sistema alimentar, já que são elaborados com ingredientes de baixo custo, estudos sugerem que deve haver uma limitação do consumo destes alimentos em benefício de alimentos levemente processados, preferencialmente produtos sazonais, biológicos e locais.
O desperdício alimentar é um dos maiores problemas ambientais da nossa sociedade: se o mesmo fosse um país, seria o 3º maior emissor de GEE, com 8% das emissões.
Em 2020, cada português desperdiçou, em média, 184 quilos de comida, ou seja, quase 60 quilos acima da média europeia
Em Portugal, os hábitos alimentares inadequados estão entre os 5 fatores de risco que mais determinam a perda de anos de vida saudável e a mortalidade

por:
Joana Oliveira

ProVeg

Pontos positivos

  • Por lei, a oferta alimentar escolar em Portugal não pode incluir alimentos com pouco interesse nutricional (exemplo: produtos com elevado nível de açúcar).
  • Portugal tornou-se o primeiro país do mundo onde é ilegal não oferecer uma opção integralmente vegetariana nas cantinas públicas.
  • Em Portugal, é costume incluir sopa à refeição, que tem igualmente presença nas ementas escolares.
  • No nosso país existem condições de solo e de clima para o cultivo de leguminosas, alimentos que são ricos em proteína vegetal e muito importantes para a transição para dietas alimentares mais sustentáveis.
  • Portugal é autossuficiente na produção de azeite desde 2014, uma gordura que pode ser mais saudável face a outras opções.

Pontos negativos

  • 53% da população portuguesa não cumpre as recomendações preconizadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) sendo que o consumo de fruta e hortícolas se encontra abaixo dos valores recomendados e o consumo de carne, pescado e ovos está acima dos valores recomendados.
  • Portugal só produz 14% das leguminosas que consome.
  • Em Portugal quase ⅓ das crianças tem excesso de peso e 14% são obesas.
  • Mais de metade das mortes por doença em Portugal são evitáveis, uma vez que estão associadas a maus hábitos alimentares e sedentarismo.
  • A pegada de carbono alimentar per capita de Portugal é a maior da UE, emitindo 1460 kg de CO2 eq/(capano), enquanto a média da UE é 1070 kg de CO2 eq/(capano).

O que podes fazer?

Ações Individuais

Adotar uma dieta mais baseada em vegetais e com menor consumo de carne e produtos de origem animal. Uma dieta maioritariamente à base de vegetais requer menos recursos naturais, leva a menos emissões de gases de efeito estufa e está associada a benefícios para a saúde.

Planear as refeições, armazenar os alimentos adequadamente e aproveitar ao máximo os ingredientes por forma a prevenir o desperdício de alimentos. 

Optar por alimentos produzidos localmente e ajustados à sazonalidade.

Optar por alimentos frescos ou levemente processados em vez de produtos altamente processados que podem conter aditivos químicos e embalagens excessivas.

Partilhar informações sobre alimentação saudável e sustentável com amigos, familiares e colegas, e colaborar para promover mudanças positivas à escala local.

Ações Coletivas

Participar ativamente e promover compras públicas alimentares que afetam cantinas públicas em escolas, hospitais, entre outros, para que priorizem a compra de alimentos locais e de base vegetal. 

Cooperar mais com os profissionais de saúde ao nível da alimentação e exigir que mais nutricionistas estejam presentes nas unidades de saúde públicas.

Votar, assinar “cartas abertas”, subscrever petições, entre outras ações, que promovam políticas alimentares sustentáveis, e a sustentabilidade ambiental na produção e distribuição de alimentos, incluindo que incentivem o redirecionamento de subsídios para culturas de base vegetal com limite ao uso de pesticidas e fertilizantes.

Exigir a introdução de programas educacionais sobre alimentação saudável e sustentável em escolas e entidades diversas, como é o caso do projeto ABAAE e do programa Prato Sustentável.

Exigir políticas e programas da redução do desperdício alimentar à escala local em particular junto de escolas e associações, e promover o encaminhamento dos resíduos alimentares para compostagem em projetos de hortas comunitárias ou outros.

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